Salmos de Meishu-Sama

 

Ó Deus!
Se assim desejais,
Com Vosso amor infalível,
Com Vossa grande misericórdia e compaixão,
Por favor, perdoai-me
Perdoai a mim, cujo corpo, família e ancestrais estão repletos de pecados!

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Eu amaldiçoava o mundo e me ressentia com pessoas.
Hoje,
A névoa que cobria meu coração naquela época se dissipou.
Desapareceu por completo!

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Fui salvo.
Como sou bem-aventurado!
Quando penso nisso,
Eu preciso, eu preciso fazer algo por Vós, ó Deus,
De todo coração, com todas as minhas forças!

Sagradas Palavras de Meishu-Sama

A vida de fé que eu segui

Nasci em Hashiba-cho, número 63, no bairro de Asakusa, em Tóquio. Minha família possuía uma modesta loja de artigos usados. Meu pai se chamava Kisaburo Okada e eu sou seu segundo filho homem.

Meu pai me educou com amor apesar de nossa família viver em extrema pobreza. Como poderia explicar isso? Desde meu nascimento, eu fui sempre muito fraco e doente. Apesar de minha fraqueza, eu sempre nutri um sonho vago, um anseio por algo distante, muito distante. Isso me levou a gostar de pintar e quando completei o ensino fundamental, aos 15 ou 16 anos, entrei em um programa preparatório de uma escola de belas artes.

O que devo dizer? Eu nasci sem sorte mesmo. Logo após entrar nesse programa preparatório, fui acometido de uma doença ocular. Essa doença foi particularmente cruel e persistente, a ponto de eu ter que abandonar o sonho de me tornar um pintor, algo que empolgava o meu coração de jovem rapaz. Naquela ocasião, meu coração mergulhou em trevas tão profundas que eu me sentia como se estivesse caindo de cabeça, com os pés amarrados, em um abismo sem fundo. Desespero. Desespero! Foi um total desespero. Eu fiquei em profundo desespero, sem qualquer esperança.

Assim que eu aparentei ter me recuperado da doença ocular, contraí pleurisia. Quando a pleurisia parecia haver cedido, fui diagnosticado com pleurisia pela segunda vez. Perdi completamente qualquer esperança. Não queria mais viver. E pior ainda: o que me abateu violentamente, quando entrava na adolescência com uma vida tão frágil e oprimida, foi uma doença pulmonar. Primeiro a pleurisia e, depois, a doença pulmonar.

Eu quero viver. Eu quero viver. Isso era tudo que eu conseguia pensar. Isso me fez procurar um médico. Meu coração já sofria pela pobreza de meus pais e, além disso, me foram receitados medicamentos caros. Eu chorava e chorava. As lágrimas inundavam o meu coração e eu não conseguia contê-las.

Como me sentia infeliz. Eu que havia sido esquecido por Deus! Apesar de ter sido diagnosticado pelo Dr. Irisawa, uma autoridade médica na época, era tarde demais. Já não havia possibilidade de cura da minha doença pulmonar.

“Rapaz… Você precisa desistir”. O médico não disse essas palavras literalmente, mas eu sabia muito bem e pensava comigo mesmo: “Minha única esperança de sobreviver é um milagre”.

Em meio a um desespero infindável, eu ansiava por algo, talvez uma luz tênue, em algum lugar distante. Meu coração inconscientemente buscava algo. Isso me fez abandonar todos os medicamentos, assim como o consumo de carne que meu médico recomendara. Eu iniciei uma dieta estritamente vegetariana e deixei minha doença seguir o seu curso. A partir de então, estranha e misteriosamente, dia após dia minha saúde começou a melhorar e, em pouco tempo, a doença que havia me causado tanto sofrimento desapareceu por completo.

Em retrospectiva, minha juventude foi sem graça e vazia, como uma primavera sem flores. Aos 25 anos de idade, logo após o falecimento de meu pai, iniciei um pequeno negócio de venda de vários produtos. E como foi misteriosa a minha vida! De alguma forma, meu negócio foi bem-sucedido e imediatamente ganhei cerca de cinquenta mil ienes[1]. Entretanto, logo após isso, eu fracassei terrivelmente e perdi cerca de cem mil ienes[2]. Credores furiosos me pressionavam a pagá-los. Como resultado, eu não conseguia nem pensar e me tornei aéreo e apático. Em seguida, minha esposa adoeceu aos cinco meses de gravidez, acometida de febre tifoide, e ficou acamada. Na época, cuidávamos dos nossos três filhos e, sem minha esposa, eu não sabia o que fazer com eles, como uma pessoa que vaga pelo escuro sem saber aonde está indo. Mas os céus ainda não haviam parado de me atormentar. Após sofrer com febre altíssima e uma agonia insuportável por alguns dias, minha esposa veio a falecer, deixando eu e nossos filhos.

De repente, minha alma passou a ansiar pela fé. Fé! Fé! Imaginei que a fé seria o único caminho para eu ser salvo do sofrimento em meu coração, meu corpo e minha vida. A dura realidade da vida havia cercado o meu coração profundamente, muito profundamente, como uma espessa parede de gelo. Eu queria, ao menos, olhar para a luz confortadora da fé em algum lugar no céu. Isso, por si só, aliviou minha alma, que chorava de tristeza e dor, com três filhos ao meu lado, que choravam cada vez mais, com saudades da mãe.

Um conhecido me disse na época: “Você está em busca de fé? Então, eu recomendo a Tenrikyo”. No entanto, meu coração não havia sido atraído por ela.

Havia um parente meu que era monge do budismo Nitiren, responsável por um templo em Monte Minobu[3]. Sempre que vinha a Tóquio, ele ficava em minha casa. Esse parente me aconselhou a iniciar uma nova vida abraçando uma alma gloriosa, começando uma nova etapa como seguidor de Nitiren. Apesar desses conselhos, eu não sentia vontade de seguir nenhuma das religiões estabelecidas. Como meu coração sofria. Desejava muito ter uma religião, uma fé. Tanto que, enquanto com uma mão eu segurava firme os meus filhos, com a outra, completamente estendida, eu buscava algo ansiosamente. Apesar disso, nenhuma das religiões parecia trazer-me a salvação. Meu coração vagava por um vasto e infindável deserto.

Tendo dito isso, na realidade, eu não poderia criar meus filhos sozinho enquanto paralelamente administrava meu negócio. Sendo assim, casei-me com Yoshi, minha segunda esposa. Ela engravidou imediatamente – cerca de seis meses após nosso casamento. Porém, aos cinco meses de gravidez, ela contraiu tuberculose. Assim, ao invés dela cuidar dos filhos, eu precisei cuidar de toda a família. A dificuldade financeira! O impacto psicológico! O desmoronamento de minha família! Eu perdi completamente a esperança de minha vida melhorar. Pensava até mesmo que não havia ninguém mais infeliz do que eu em todo o mundo. Nunca esquecerei isso. Tudo isso aconteceu em 1920.

Naquela época, eu vi uma propaganda no jornal e comprei um livro intitulado: Avaliando a Oomoto. Em busca da fé, meu coração procurava ansiosamente uma corda em que eu pudesse me segurar. Esse coração tentava compreender a verdadeira identidade dessa nova religião chamada Oomoto.

E então, eu me senti atraído por alguma coisa. Cada letra! Cada frase! Cada página! Não tenho como enumerar tudo em detalhe, mas alguma coisa, alguma força inexplicável, tomou conta do meu coração e me atraiu.

Algum tempo depois, tomei conhecimento através de um artigo no jornal que a Oomoto havia organizado uma palestra em Kanda[4]. Assim, fui assistir a essa palestra. Acredito que o nome do palestrante era Toru Yoshihara. Então, com cada palavra que o senhor Yoshihara dizia, e à medida em que essas palavras se juntavam, eu pensei: “Tem que ser a Oomoto… A fé que vim buscando por tanto tempo só pode ser a Oomoto. A Oomoto me salvará”. Eu ouvia essas vozes claramente atingindo o meu coração. Como minha mente se iluminou no momento em que percebi que realmente eu seria salvo.

Nessa época, além de eu estar sendo processado por fraude, eu era réu em outros sete ou oito casos judiciais. Oficiais de justiça estavam constantemente fazendo buscas em minha casa – eu vivia num estado infernal. Porém, como alguém cuja alma havia sido salva, nada podia me subjugar. Deste modo, eu deixei os casos judiciais para os advogados e corri para Ayabe[5], onde ficava a sede da Oomoto. Tudo o que eu queria, com total sinceridade e determinação, era a salvação, uma fé. Usando a janela do trem como travesseiro, meio acordado e meio adormecido na escuridão, eu me preocupava com minha situação financeira desesperadora. No entanto, no fundo do meu coração, eu tinha uma forte e inabalável convicção na fé, que irrompia em chamas.

Após visitar Ayabe, voltei para casa. Imediatamente, recebi um milagre de Deus. Minha esposa, Yoshi, se recuperou completamente de sua enfermidade no dia seguinte. Hoje, ela está muito bem, sendo mãe de cinco filhos.

Cinco anos atrás, eu sofri uma falência comercial, mas, hoje, nada consegue abalar minha convicção de que sou sempre protegido por Deus. Há bem pouco tempo, minha situação financeira voltou ao normal e, hoje, aos 39 anos de idade, tenho uma vida calma e tranquila.

Tudo, absolutamente tudo, aconteceu pela graça de Deus.

Eu fui salvo pelo poder de Sua graça, pelo calor de Sua mão salvadora.

Com o passar do tempo, dia após dia, minha fé se tornou cada vez mais profunda e firme. Três anos atrás, eu recebi uma revelação de Deus e agora, neste momento, o estado de minha mente é transcendental, sutil, puro e espontâneo. Coisas mundanas nem chegam perto dela. Dentro de mim há uma luz perfeitamente esférica e suave e eu respiro calmamente com meu espírito e corpo.

Olhando o passado, metade de minha vida foi realmente repleta de dificuldades e sofrimentos. Porém, eu sinto que foi por causa desses sofrimentos que eu consegui obter a felicidade da qual desfruto hoje.

Obras Completas de Mokiti Okada, Escritas, vol. 1,
pág. 11-16, 1º de novembro de 1930

[1] Valor equivalente a 2.000.000 de dólares americanos em 2020.

[2] Valor equivalente a 4.000.000 de dólares americanos em 2020.

[3] Monte localizado na vila Minobu, que fica no distrito de Minamikoma, prefeitura de Yamanashi (região central da principal ilha do arquipélago japonês).

[4] Kanda é um distrito no bairro de Chiyoda, em Tóquio.

[5] Município localizado na província de Quioto.

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